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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Lançamento do livro "De cara com a fera", de Cláudia Etchepare



Clique para saber mais sobre o livro.
 Lançamento do livro:  "De Cara com a fera - O verso e o reverso do câncer", de Cláudia Paixão Etchepare. (Editora Metamorfose)

Sexta-Feira, Dia 8 de Novembro de 2018, das 19h30 às 22h, no Café do Porto (Padre Chagas, 293, Moinhos de Vento, Porto Alegre)

Quinta-Feira, Dia 15 de Novembro (feriado), das 17h30 às 18h30, na Feira do Livro de Porto Alegre 2018, Praça da Alfândega, Centro Histórico.

"Relato neste livro como lidei com a parte que me tocou do imponderável, quando me descobri portadora de um câncer." 
Cláudia Paixão Etchepare.









Cláudia Paixão Etchepare é formada em Letras - Inglês e Português e suas literaturas. A escrita é companhia constante no seu mosaico de variadas atividades. Teve 3 contos publicados em coletânea e também escreve em inglês, língua com a qual tem intimidade e é seu instrumento de trabalho. Desde 2012 frequenta oficinas de escrita literária em Porto Alegre, e concluiu recentemente o Curso de Formação para Escritores na Metamorfose Cursos. Lança seu primeiro livro estilo memoir De cara com a fera: o verso e o reverso do câncer - relatos, ponderações e reflexões sobre sua experiência com o imponderável: um câncer.






Textos de Cláudia Etchepare publicados no site da Casa Basca do Rio Grande do Sul: 


"Crônica da Fronteira".  (Outubro de 2013)








Na compra do livro "De cara com a fera: o verso e o reverso do câncer"

parte da renda será revertida para o PROJETO MOSAICO.



Você sempre desejou participar de alguma forma de voluntariado, mas não sabe como?
O projeto consiste em uma ação entre amigos interessados em conhecer as oportunidades e opções de ajuda voluntária a causas beneficentes, aqui em Porto Alegre.

Como funciona o Projeto? 
O PROJETO MOSAICO é dividido em um grupo de pessoas que fazem parte do LABORATÓRIO DE IDEIAS e um grupo maior que são os VOLUNTÁRIOS EVENTUAIS. Como parte do programa, convidaremos representantes de associações beneficentes para conhecermos o seu trabalho e mapearmos suas necessidades. A ideia é prestar apoio às instituições com projetos e ações simples e originais, repensados com um novo ângulo de visão.




sexta-feira, 22 de maio de 2015

"O dia em que apreendi a Língua Basca, Euskera" por Cláudia Etchepare


O DIA EM QUE APREENDI A LÍNGUA  BASCA , EUSKERA.

Por Claudia Etchepare


Adão e Eva falariam basco? Uma hipótese surpreendente foi publicada por um padre basco durante o século XVIII. Euskera é considerada uma ilha linguística.  Sem semelhança com qualquer língua viva ou extinta, há quem diga até que é a mais antiga do mundo. Atualmente, há um forte movimento de valorização do euskera. E a Casa Basca do Rio Grande do Sul cumpre, mais uma vez, o importante papel de difundir a cultura basca: na semana passada recebeu a professora e filóloga basca IZASKUN KORTAZAR para ministrar um curso intensivo de euskera. A integração dos basco-descendentes foi emocionante e coroada pelo primor das aulas ministradas pela nossa professora, que mora em Idaho, EUA. O que dizer da experiência de ser apresentada a uma ferramenta tão complexa como a língua basca?  Uma língua que tem a máxima Izena Zuen guztia omenda  - Tudo aquilo que tem nome existe -  como um preceito de vida ?
Digo que esta experiência me fez entender que uma cultura densa e antiga como a basca precisa fazer uso de uma ferramenta de peso para operá-la.  A língua basca traz incrustada na sua memória milenar preciosos conteúdos históricos. São expressões genuínas de seus costumes, termos não pronunciáveis para os ingredientes de sua rica gastronomia e, em especial, uma sonoridade que não deixa dúvida quanto à determinação implacável de sobrevivência desta raça.
Aprender os sons tribais e intricadas estruturas da língua basca foi para mim um orgulho, um complexo desafio e um encantamento. Tenho a esperança de um dia poder interagir nesta língua, nem que timidamente, com um povo cujos nomes das famílias são topônimos, o que indica um laço muito forte com a terra e que, paradoxalmente, define sua identidade nacional usando o termo euskaldun - basco-falantes-  para denominar um basco. A terra basca reclama e acolhe como basco toda e qualquer pessoa que fale euskera, independentemente de qual seja a sua origem ou de onde more. Tomar posse dos rudimentos da língua dos meus ancestrais ajudou-me a entender a magia que envolveu a mim e ao meu marido ao percorrermos de carro os vilarejos bascos entre Espanha e França, ao pé dos Pirineus. Apesar das placas parecerem nos xingar e os sons do povo soarem como oriundos de um filme mitológico, partimos preenchidos de sensações e conhecimentos estranhamente bem maiores dos que os nossos ouvidos e olhos humanos captaram.
É desta magnitude a cultura encapsulada na língua euskera.

Se eu aprendi, realmente, a me comunicar em euskera? Convenhamos, uma língua destas não é para se aprender. É para se apreender. Com todos os sentidos do corpo e com a profundidade da alma.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Crônica da Fronteira (por Cláudia Paixão Etchepare)

                                                                                   
    
                                                                                 APRESENTAÇÃO
Maria Claudia Paixão Etchepare, Diretora Social da Casa Basca do RGS,  é  professora de inglês há mais de 30 anos. Casada com o inseparável Luis Antonio Senger, o L.A., e mãe de Carolina Etchepare Guindani,  Claudia, como é chamada, demonstra seu  amor à cultura e às letras,  não somente promovendo encontros culturais em idioma saxão no Clube de Inglês mantido para alunos executivos,  como também participando de oficinas literárias( já teve três contos publicados no livro Contos Contemporâneos da Oficina de Criação Literária de Alcy Cheuiche). E afinal, o amor à arte e à literatura não emerge somente do lado basco (anoto que , a primeira obra de Literatura Basca de que se tem notícia foi escrito por um Etxepare- Bernard Etxepare- , em 1545, sob o título Linguae Vasconum Primitiae),  mas sendo sobrinha do renomado Paixão Cortes, a cultura sempre teve lugar de destaque em sua formação e de sua família. Depois de alguns anos de afastamento, Claudia retornou recentemente à amada terra natal, Santana do Livramento,  decidindo expressar suas  emoções em uma linda crônica, produto de muito talento e sensibilidade. Para nosso deleite, Claudia Etchepare permitiu que sua doce produção literária fosse compartilhada com os leitores do blog, especialmente com seus conterrâneos da Fronteira da Paz. Agradeço à nossa querida Diretora Social e amiga por este presente e parabenizo aos santanenses por mais um talento fronteiriço.

Ana Luiza Panyagua Etchalus
Presidente                                                                                                
Casa Basca do Rio Grande do Sul

Crônica da Frontera

por Claudia Paixão Etchepare

Cláudia Etchepare

















Ah, fronteiras! Dizem que são linhas divisórias onde acaba o conhecido e o desconhecido se apresenta, a ser desbravado. Há as imaginárias, as emocionais e as físicas. Tenho especial predileção pelas fronteiras geográficas, como rios, montanhas e desertos. Elas nos dão a condição ínfima do humano. Fronteira é terra sem dono, zona de desconforto. Ao cruzar a fronteira abrimos mão de nossa soberania e corremos risco de ter nossas crenças subvertidas e nossas verdades postas à prova.

Partimos eu, meu marido, minha filha e minha tia-anjo-mãe prontos para desbravar la más hermana de todas las fronteras del mundo. Era um dia iluminado de outono. Três diferentes gerações, nascidas nas décadas de 20, 50 e 80, compartilhavam o espaço do carro e a promessa de bons momentos. Santana do Livramento, onde nasci e vivi até os meus seis anos de idade, era o nosso destino. A integrante nonagenária da troupe garantia o testemunho das histórias de quem viveu o dia a dia da terra.  Um par de mudas de roupa e itens básicos jogados apressadamente nas malas englobavam todas as nossas posses naquele momento. A totalidade de nossa rede social reduzia-se a três companheiros de viagem e a estrada, a única opção de caminho. Como diz o vocalista da banda Eagles, this could be heaven, this could be hell...
Na estrada, do lado direito, coxilhas suaves tingidas de diferentes matizes de verde e extensões de rara amplitude para os olhos citadinos. Vacas, mais vacas. Do lado esquerdo, a mesma coisa. Olha aquela vaca ali, parece ser prima daquela que vimos mais atrás - diz o meu espirituoso marido,  e nos faz explodir em risada, tomados pelo relaxamento compulsório que a estrada impõe. O aroma adstringente das bergamotas, que saboreávamos para ajudar a passar o tempo,  disfarçava o cheiro de zurrilho em certos trechos da estrada. Lá fora, cercas sobem e descem acompanhando obedientemente as linhas do relevo. Capões, feito tufos rebeldes, salpicam o campo enquanto retalhos simétricos de reflorestamento de acácias beiram a estrada. Silos metálicos cortam a mesmice bucólica do pampa. Imponentes representantes da economia do estado. Quando eu viajava com frequência à Punta del Este pintei muitas aquarelas, impactada pelas imagens do percurso. E lá estavam as minhas aquarelas sendo reproduzidas em série, ao longo da estrada, como o quadro a quadro dos rolos de filmes da era pré-digital. Casinhas de joão-de-barro empoleiradas nos postes. Passarinhos pousados em linha nos fios da rede elétrica. O amarelo ouro das plantações. Verdadeiras cópias de minhas obras. Será que isto não seria um autoelogio?

Santana do Livramento tem uma fronteira sui generis que vive há muito inserida no conceito moderno de comunidades colaborativas e interativas. É uma fronteira de mescla, de soma. Lá, o simples cruzar de uma avenida determina a mudança de nacionalidade da terra Brasil para a terra Uruguai. E nada muda.Tudo se funde.
Chegamos em Santana do Livramento exalando pampa pelos poros. Os fatos que se sucederam nos dois dias e duas noites que passamos na minha terra natal, os tenho registrados como flashes fotográficos. Visitam-me à revelia. Inquietam-me com o suave bater de asas de borboletas em minhas entranhas.
Parrilla. Alfajores. Comfort food para alguém criado com hábitos fronteiriços. Nosso charmoso hotel boutique em Livramento, instalado em um prédio histórico restaurado. Acolheu originalmente uma prisão, explica a esclarecida dona enquanto nos recebe para um simpático brinde de boas vindas. Mais parrilla. Cerveza Norteña. Algumas comprinhas no free shop da Avenida Sarandi em Rivera. Dulce de leche. Milhojas fresquinhas na confitería. Um encontro enriquecedor com uma mulher culta, bela e forte, cuja avó era irmã da minha avó. Ela vive em uma casa suntuosa estilo neo-clássico alheia ao caos do comércio e da arquitetura desfigurada das ruas que sobem e descem o centro de Livramento.   Conversa caudalosa e calorosa, regada a vinho local. Identificação mágica. Eskerrik asko, meu conterrâneo e basco-descendente, assim como eu, por este contato precioso.  Mais compras: vinho tannat para compor a adega de inverno e galletas. Fazer uma fezinha, tentar la suerte no cassino. Negro el ocho! No vá más! Minha filha estava com a mão encantada. Emoção. A casa onde nasci. Pelas mãos de Dona Luizinha, a parteira. Cinza chumbo, porta muito alta trabalhada com entalhes em madeira e um robusto trinco de bronze. Arquitetura clássica da região. Frações de memórias repicam ao som dos meus passos pelas ruas da cidade. A cidade ganha uma nova dimensão à luz de meu amadurecer. O olhar do homem de sobrancelhas grossas e pele cor de oliva lembra os ares do meu pai. Ao cruzar a avenida, a imagem da mulher de traços nobres e trajar elegante me enche de saudade da beleza de minha mãe. Um brinde para celebrar o sucesso de nossa excursão e incursão ao passado. Missão cumprida, com tudo que tínhamos direito. Matambre delicioso e incrivelmente macio. Chajá. Un té, por favor, para ajudar a digestão. Pena que não pudemos visitar o Clube Campestre porque chovia.

Os dois países invadem- se carinhosamente. O português e o espanhol são intercambiados com naturalidade ou se mesclam deliciosamente. O fluido trânsito social e comercial entre eles incorpora grandezas que vão além da boa vizinhança. Os traços físicos, a maneira de se vestir, o hábito de tomar mate e o gosto pelo assado fundem-se em um só homem, o gaúcho fronteiriço ou gaucho. Um verdadeiro precursor do conceito atual do homem global. Ok, Ok.
Talvez esteja me deixando levar pela emoção.

Voltamos pela mesma estrada. Do lado esquerdo, ganado Angus, Hereford, Holandês, verde em profusão e em diferentes tons, e do lado direito... Bem, eu já contei.  Só que, no percurso de volta, a imensidão da paisagem não mais se exibia distante, pelo lado de fora. Estava dentro de mim.

 Ah, fronteiras!